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  • Espaço Exibicionista

MARTINHO DIAS

A obra de Martinho Dias é maioritariamente figurativa e tem como tema central o social, jogando com os diferentes poderes da sociedade e camadas sociais privilegiadas, mesclada a uma generosa dose de ironia e humor que circula por muitos paradoxos. Martinho Dias (St. Tirso, 1968) mestre em Artes Plásticas – Pintura, pela Faculdade de Belas Artes do Porto. Foi professor de Artes Visuais até 2009, ano em que passou a dedicar-se inteiramente à atividade artística. O seu trabalho integra diversas coleções e tem sido apresentado regularmente em Portugal e no estrangeiro, em exposições individuais e coletivas, bienais, simpósios e feiras de arte.


Martinho Dias work is mostly figurative and his main theme is a social one, playing with society's different powers and privileged social layers, mixed with a generous portion of irony and humour circling many paradoxes. Martinho Dias (St. Tirso, 1968) Master in Visual Arts – Painting, by the Faculty of Fine Arts of Porto. He was a professor of Visual Arts until 2009, when he began to dedicate himself entirely to artistic activity. His work is part of several collections and has been regularly presented in Portugal and abroad, in individual and group exhibitions, biennials, symposiums and art fairs.


 

MINDSET, 2023


INSIDE EE : MARTINHO DIAS, 2023


Neste imaginário existem detalhes do quotidiano que nos saltam à vista, outros tentam passar despercebidos. Que paradoxos e analogias podemos ver aqui retratadas através desta intervenção sobre diferentes obras da História de Arte? In this imaginary there are details of everyday life that jump out at us, others try to go unnoticed. What paradoxes and analogies can we see portrayed here through this intervention on different works of Art History?


Parece-me que os paradoxos e as analogias se aproximam cada vez mais entre si. O tempo presente está repleto de contradições lógicas, inconcebíveis, que julgávamos pertencer apenas ao domínio da ética, da física ou da arte. Acontece que os paradoxos se tornaram mais reais do que imaginávamos, levando-nos a conceber analogias paradoxais. Os casos associados ao poder são exemplos flagrantes. Zygmunt Bauman já nos havia alertado de que a solidez pertencia ao passado. Agora, tudo é líquido o que nos leva a desconfiar de tudo e eventualmente de todos, até de nós próprios, das instituições mais idóneas, dos sacos ecológicos, da igualdade de género, dos cartões de pontos, das notícias... É assim, e muito mais, este admirável mundo novo. Não há impermeável que resista a toda esta liquidez e como tal, até os paradoxos estão em crise. A lógica não existe, ou então, cada um tem a sua. Não falta já quem ande à procura de problemas para as soluções.


Sem querer ampliar a complexidade da questão e sem pretensiosismos exacerbados, eu diria que a intervenção que fiz sobre obras da História da Arte, escolhidas sem critérios rígidos, é uma espécie de metáfora das movimentações atuais, das mentalidades. Mesmo com os paradoxos em queda, eu tentei provocar alguns, como o petroleiro “Prestige” a afundar-se numa das pinturas com nenúfares, de Monet, ou os grandes blocos de gelo, de Caspar David Friedrich, a engolirem mesas e cadeiras – as mesmas sobre as quais se lançam projetos e se come o prato do dia. Entre outras, encontraremos ainda referências a primitivos regimes políticos, jogos amorosos ou ao mundo da arte contemporânea.


It seems to me that paradoxes and analogies are getting closer and closer to each other. The present time is full of logical, inconceivable contradictions that we thought that belonged only to the domain of ethics, physics or art. It turns out that the paradoxes became more real than we imagined, leading us to conceive paradoxical analogies. Cases associated with power are flagrant examples. Zygmunt Bauman had already warned us that solidity belonged to the past. Now, everything is liquid, which leads us to distrust everything and eventually everyone, even ourselves, the most reputable institutions, ecological bags, gender equality, scorecards, the news... and much more, this brave new world. There is no waterproof that can withstand all this liquidity and as such, even paradoxes are in crisis. Logic does not exist, or else, everyone has their own. There is no shortage of people looking for problems to find solutions.


Without wanting to expand the complexity of the issue and without exacerbated pretentiousness, I would say that the intervention I made on works from the History of Art, chosen without strict criteria, is a kind of metaphor for current movements, for mentalities. Even with the falling paradoxes, I tried to provoke some, like the “Prestige” oil tanker sinking in one of Monet’s paintings with water lilies, or the large blocks of ice, by Caspar David Friedrich, swallowing tables and chairs – the the same ones on which projects are launched and the dish of the day is eaten. Among others, we will also find references to primitive political regimes, love games or the world of contemporary art.


MARTINHO DIAS
MINDSET - MARTINHO DIAS ,2023

Em algumas das peças existe um repetir de ações ou comportamentos separados pela temporalidade. Vivemos sobre um novo Mindset ou ele sempre existiu? In some of the pieces there is a repetition of actions or behaviors separated by temporality. Are we living on a new Mindset or has it always existed?


O ‘Mindset’ sempre existiu, apenas angariou uma terminologia nova. Continua a significar o nosso modo de agir, mentalidade, configuração mental. Aliás, são tantos os novos termos, sobretudo em inglês, que quase seria possível escrever esta resposta somente com eles, deixando para o português, as vírgulas e pouco mais. Para usar um outro termo, anterior, podemos dizer que o Mindset convive de muito perto com o Zeitgeist, ou espírito da época. Esta dupla acaba por estar muito refletida nas redes sociais, sendo necessária uma aprendizagem e atenção redobrada para dissecar a relevância dos conteúdos.


The ‘Mindset’ has always existed, it just acquired a new terminology. It continues to mean our way of acting, mentality, mental configuration. In fact, there are so many new terms, especially in English, that it would almost be possible to write this answer only with them, leaving the commas and little else for Portuguese. To use another, earlier term, we can say that the Mindset coexists very closely with the Zeitgeist, or spirit of the age. This duo turns out to be very much reflected on social networks, requiring increased learning and attention to dissect the relevance of the contents.




Nesta exposição cada obra transmite uma mensagem própria ou levanta interrogações especificas sobre um determinado tema. No seu conjunto, o “mindset” tem uma leitura mais generalizada? In this exhibition, each work conveys its own message or raises specific questions about a particular theme. As a whole, does the “mindset” have a more general reading?


Poderei dizer que, sim, embora tenha estado mais interessado no conteúdo deste “mindset”, que são as obras que dão corpo a esta exposição, do que com termos ou mensagens. De qualquer modo, há sempre uma ideia “líquida” por detrás de cada pintura que me ajuda na composição, nas figuras, cores e expressão de cada trabalho. Se forem capazes, cada um deles tem a autonomia suficiente para interagir de modo diferente, mas em comum, apresentam algo que perturbou a narrativa já existente. Em alguns casos, a “cena” ainda decorre, enquanto noutros, as alterações sofridas já se apresentam absorvidas, como no caso da tempestade que se abateu sobre o local do “Déjeuner”. Creio que as quatro personagens de Manet, vindas de 1863, aceitaram o desafio provocado por uma tempestade recente, reagindo bem à mudança de “mindset”.


I could say that, yes, although I was more interested in the content of this “mindset”, which are the works that embody this exhibition than terms or messages. Anyway, there is always a “liquid” idea behind each painting that helps me in the composition, figures, colors and expression of each work. If they are capable, each one of them has enough autonomy to interact in a different way, but in common, they present something that disturbed the already existing narrative. In some cases, the “scene” is still in progress, while in others, the changes suffered have already been absorbed, as in the case of the storm that hit the “Déjeuner” site. I believe that Manet's four characters, coming from 1863, accepted the challenge provoked by a recent storm, reacting well to the change of “mindset”.


 

OFÍCIO DA SOLITUDE, 2022


O 'Ofício da Solitude' é uma série de 10 programas sobre 10 artistas portugueses, com realização e produção de Fernando Augusto Rocha e apresentação de Rui Reininho.

 

JÓ E O JOGO DE DEUS, 'APOCRYPHU' GROUP SHOW 2021



The Gallery challenged the artists to present a work related with the bible.


 

TRIGGER, 2021



Enquanto artista, como te defines? As an artist, how do you define yourself?


Considero-me um artista indefinido, figurativo, expressivo, sério e humorado. Interessa-me muito o conceito, mas não sou conceptual. Não consigo trabalhar apenas com a mente, o que me obriga a usar tintas, pincéis e cartões magnéticos. Talvez seja um (re)construtor de narrativas ou um manipulador de imagens e de contextos.


I consider myself an indefinite, figurative, expressive, serious and humorous artist. I am very interested in the concept, but I am not conceptual. I can't work with my mind alone, which forces me to use paints, brushes and magnetic cards. Perhaps he is a (re) builder of narratives or a manipulator of images and contexts.



Há quanto tempo estás na Arte? How long have you been in the art?


Eu diria que estou na Arte desde que me conheço, tendo começado pela “arte de brincar” – uma arte em extinção. Nunca quis ser astronauta porque achava impossível, mas acreditava que poderia voar com uns cartões amarrados aos braços – tudo correu bem, sempre, menos voar. Sempre aproveitei todo o tipo de papéis para desenhar... Quando fiz a minha primeira pintura a óleo utilizei água para “diluir” as tintas...


I would say that I have been in Art since I met, having started with the “art of playing” - an art in extinction. I never wanted to be an astronaut because I thought it was impossible, but I believed I could fly with some cards tied to my arms - everything went well, always, except flying. I always used all kinds of paper to draw ... When I made my first oil painting I used water to "dilute" the paints ...



Qual a tua temática principal? O que te inspira? What is your main theme? What inspires you?


A minha temática é sobretudo social, jogando com o poder e a falta dele ou com comportamentos diversos (des)conectados entre si. Gosto de ver diferentes modalidades (incompatíveis, por norma), a jogar no mesmo campo: umas vezes pode ser a tela, outras, a vida. A inspiração encontro-a no tempo que vivemos atualmente e na forma como vivemos nele. Interessa-me o modo como os humanos se relacionam (ou não) entre si e consigo próprios.


My theme is mainly social, playing with power and lack of it or with different (un) connected behaviors. I like to see different modalities (usually incompatible), playing on the same field: sometimes it can be the canvas, sometimes it can be life. Inspiration is found in the time we live today and the way we live in it. I am interested in how humans relate (or not) to each other and to themselves.



O que significa ser criativo? What does it mean to be creative?


Ser criativo significa ser capaz de fazer algo novo com aquilo a que todos têm acesso, mas que ainda não foi feito. Como as palavras, por exemplo, ou os sons, ou o corpo ou os comportamentos. Ser criativo não é uma propriedade exclusiva dos artistas. Há muita gente comum, menos comum do que toda a gente. Ser criativo, devia ser uma obrigação!


Being creative means being able to do something new with what everyone has access to, but has not yet been done. Like words, for example, or sounds, or the body or behaviors. Being creative is not the exclusive property of artists. There are a lot of ordinary people, less common than everyone else. Being creative should be an obligation!

 

PÉS DE BARRO - 'DIAD' GROUP SHOW 2019

MARTINHO DIAS

The Gallery challenged the artists to present a work related with idiomatic phrases



Artist Statement

Sugiro, desde já, uma inspeção aos próprios pés.

Todos sabemos da existência de gigantes com pés de barro a morar em castelos de areia sob cúpulas de gelo. Contudo, falta-lhes o mérito para tal condição. Falta-lhes reconhecer a sua pequenez para serem capazes de dispensar a grandeza.


Ao contrário de Nabucodonosor, estes gigantes modernos já não têm sonhos para serem revelados e interpretados, nem a sua aparência se assemelha à grande estátua. Não dormem e trabalham compulsivamente na construção do poder próprio. O que há em comum entre estes colossos é a fragilidade – a qualquer momento, uma pequena pedra pode colocar fim à imponência, tal como o jovem David o fez ao derrotar Golias.

Quando acontece, seria justo ficarmos agradados com a derrocada, mas não é assim. São os anões, os que foram suportando os gigantes, que têm que limpar o lixo resultante do grande colapso. Não lhes bastando a dor de costas e os trabalhos de limpeza, têm ainda que arcar com as próprias escoriações.


Há quem já nasça gigante, com todas as implicações no trabalho de parto. Depois, a dificuldade é manter-se gigante obrigando a regulares trabalhos de manutenção da frágil estrutura que os sustenta. Há, igualmente, os que, nascendo anões aspiram a gigantes. A escalada até aos ombros dos maiores seria um bom começo, mas dada a dificuldade, opta-se por amontoar tudo e todos os que estão por perto acreditando que o topo fica menos distante. Estará a grandeza unicamente no topo? Talvez os gigantes de hoje não passem de colossos deprimidos e frustrados empoleirados em pilhas de loiça.

I suggest, right now, an inspection of one's feet.

We all know of the existence of giants with clay feet to live in sand castles under ice domes. However, they lack the merit of such a condition. They lack their smallness to be able to dispense with greatness.


Unlike Nebuchadnezzar, these modern giants no longer have dreams to be revealed and interpreted, nor does their appearance resemble the great statue. They do not sleep and work compulsively in the construction of their own power. What is common among these colossi is the fragility - at any moment, a small stone can put an end to the grandeur, just as young David did when defeating Goliath.

When it happens, it would be fair to be pleased with the collapse, but it is not so. They are the dwarves, who have been supporting the giants, who have to clean the garbage resulting from the great collapse. Not having enough back pain and cleaning work, they still have to bear their own bruises.


There are those who are already born giant, with all the implications in labor. Then the difficulty is to remain giant, obliging regular maintenance of the fragile structure that sustains them. There are also those who, being born dwarfs aspire to giants. Climbing up to the shoulders of the bigger ones would be a good start, but given the difficulty, you choose to stack everything and everyone around believing that the top is less distant. Is the grandeur only at the top? Perhaps today's giants are nothing more than depressed, frustrated ghosts perched on piles of crockery.

Martinho Dias
Martinho Dias (Portugal)

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