EXPOSIÇÃO DE PINTURA DE HUGO SILVA "UNSPOKEN" 2019

February 19, 2019

 

 

O silêncio costuma carregar o peso do indizível. Atinge-nos com estrondo e grita-nos, frequentemente, segredos com origem no mais profundo do humano. O que é extraordinário é que aquilo a que chamamos segredos podem muito bem ser coisas do quotidiano, embora reflexos da expressão de uma memória profunda, primordial, que nos constitui e que faz do humano, humano. A “ciência” do silêncio, como poderíamos chamar à investigação em torno do que não é dito, daquilo que fica nas expressões, nos sinais que constantemente emitimos, e que através deles expressam mundos inteiros, desvela-nos este universo de que bastas vezes não nos damos conta: existe uma linguagem, de uma complexidade extrema em que a mente e o corpo parecem confiar mais do que na própria língua falada. Uma linguagem que parece superar as palavras e parece traçar velhas filosofias, tão antigas que antecedem o verbo. Uma poética do início dos tempos. "Unspoken" é o olhar que se deposita sobre a pessoa amada, é o gesto que emociona um desconhecido e que nos faz interrogar acerca dos mistérios que aquele rosto encerra. A poesia que brota de um corpo cuja expressão de beleza transcende o que a sociedade nos impõe. Damo-nos conta, então, no confronto com estas pinturas, que Hugo Silva coloca a sua técnica ao serviço de uma poética da linguagem do gesto. Parece existir uma investigação em busca do significado último da expressão daquele rosto fechado em si mesmo, daquelas mãos cujos dedos se arqueiam ligeiramente como se pretendessem segurar a vida que lhes parece escapar.

 

Carlos Ribeiro, 2019

 

 

 

 

 

ART MAGAZINE

SOBRE HUGO SILVA

 

 

 

Nesta exposição “Unspoken”, existe uma forte abordagem às expressões humanas. Uma linguagem gestual repleta de emoções. Como descreves este corpo de trabalhos?

Parece-me que a maior consistência no meu trabalho é a ideia de humanidade. Encontrar uma forma de representar a consciência humana através da figura, não somente a aparência externa, mas os seus estados emocionais. Este corpo de trabalho está fortemente ligado à experiência e à memória. A comunicação gestual é a forma mais primitiva de falar a verdade, sem se dizer uma palavra.

 

 

Há cerca de 4 anos decidiste ir residir para a Polónia. Porquê esta mudança?

Esta mudança foi feita através de uma paixão por uma menina de cabelos encaracolados. Uma paixão que virou amor e um amor que, pelo que parece, veio para ficar. Desde então, fundamos a HuWe onde leccionamos workshops de desenho e pintura para crianças e adultos.

 

 

Como é o teu processo criativo?

É uma trajectória que parte de um estado de insatisfação… Primeiro instala-se a angústia e depois uma inquietação e vontade de produzir. As ideias que eu escolho abordar, são aquelas que me perseguem e não me dão tréguas. É um acumular de ideias e desdobramentos de trabalhos anteriores. Eu fotografo os meus modelos em estúdio, o que me permite um maior controlo na manipulação da luz e posiciona-los assim como desejo. Uso, então, a imagem fotográfica como ponto de partida. A partir daqui surgem questões pictóricas e é quando o desafio começa.

 

 

Por que pintas?

Pinto porque sim, da mesma forma que respiro, é natural. A pintura é uma manifestação do pensamento. Não a consigo dissociar da minha vida desde a minha adolescência. É uma forma que tenho de comunicar com o mundo, no qual vivo e interajo, e de me conhecer a mim próprio. Não sei se o que pinto dá alegria a alguém mas eu alegro-me muito quando pinto. Talvez isso baste para justificar porque o faço.

 

 

Que cores usas na tua paleta para pintar os teus retratos?

A minha paleta varia levemente. Gosto de explorar várias combinações e o sistema de cores que escolho para pintar os meus retratos, depende dos tons de pele, da relação com o fundo e da cor que é reflectida nas sombras que, normalmente, são projectadas pelas cores dos objectos circundantes ou próximos ao modelo. A teoria da cor é um assunto complexo no qual eu tenho muito interesse.

Tenho investido ao longo destes anos, cada vez mais em tintas de qualidade superior feitas através de processos artesanais, como Williamsburg Handmade Oil paints e Michael Harding, e por vezes também as faço. Como sou apaixonado por cor, sempre que posso compro mais tubos, não sei onde parar… Mas não os uso todos de uma só vez. Sendo que pinto por camadas, num estado inicial da pintura, gosto de limitar a paleta, o que me dá maior liberdade e aproximação à ideia geral do que quero pintar. Desta forma, faço mais com menos. Tenho sempre amarelos, vermelhos e azuis à minha disposição, que me permite produzir verdes, laranjas, violetas e castanhos… À medida que a pintura se desenvolve e me aproximo do específico, também uso algumas destas cores, seja pela sua transparência e conveniência na paleta.

 

 

Quando dás por terminada uma obra?

Uma pintura nunca se completa. Há uma diferença entre o que se concretiza e o que está sempre por ser realizado. A pintura terminada pertence a um processo inacabado.

 

 

Cinco pintores que te influenciam…

Poderia dar mais do que cinco, que não me influenciam de uma forma directa mas que me intrigam e me fazem pensar: Michaël Borremans, Justin Mortimer, Victor Man, Mircea Suciu, Alexander Tinei, Harland Miller. Foram seis.

 

 

Ouves música enquanto trabalhas ou preferes o silêncio? O que ouves?

Gosto muito do silêncio e é ele que me abre espaço para a reflexão. Contudo, grande parte do tempo tenho os meus headphones Audio-Technica ATH-M50x colados ao ouvido. Tenho um gosto muito eclético, que varia desde post-punk, synth-pop, new wave, dark wave,  electro, rock, até musica clássica. Gosto de música alternativa e estou sempre a pesquisar. Principalmente música atmosférica, sombria e melancólica. Entre muitos que me acompanharam e ouvi extensivamente nestes últimos meses, destaco Molly Nilsson, Lebanon Hanover, John Maus, Gold Zebra, Public Memory, The Sound, Anne Clark, Beach House, Princess Chelsea, Modest Mouse, Amen Dunes, Radiohead, Low, Cigarettes after Sex, The Modern Lovers, Fujiya & Miyagi, Khruangbin…

 

 

Como te vês daqui a dez anos?

Eu só quero poder comprar tintas, continuar a pintar e reflectir. O resto, virá por acréscimo. Esses são os meus objectivos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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