OS FANTASMAS CÉPTICOS DE PEDRO ZAMITH

 

 

Na sua remota origem grega a palavra “céptico” significava “aquele que olha em volta”, logo, aquele que cria entre si e o mundo uma distância que lhe permite ver que todas as coisas vacilam e nós vacilamos com elas, que tudo está na iminência de se tornar outra coisa, que os corpos são atravessados por fantasmas, que o tempo não é cronologia mas memória. Quem se afasta para poder olhar é inevitavelmente aquele que conhece o abismo e é tomado pela angústia, pela percepção de que nada é contínuo, que toda a segurança é ilusória, que em tudo há brechas, que entre o Bem e o Mal, o Dia e a Noite, a Morte e a Vida, há ligações insólitas, misturas monstruosas, excrescências, fantasmas, mentiras, segredos, formas ainda sem nome e coisas sem palavras que as digam.

 

 

É nessas brechas, nessas passagens, como lhes chamaria Walter Benjamin, que Pedro Zamith trabalha. Nesses lugares inquietantes e esquivos à racionalidade, onde o corpo se caricaturiza, se monstrifica para, incessantemente, nos falar das formas de poder que o distorcem, que o obrigam a ir até aos limites da sua plasticidade. O corpo humano é a matéria-prima por excelência do universo de Pedro Zamith. As suas personagens, simultaneamente caricaturas e monstros, apontam para dois problemas fundamentais: enquanto caricatura, elas evocam o poder que a sociedade exerce sobre os indivíduos fazendo com que os seus corpos sejam levados ao limite da distorção para se poderem adaptar às regras; por outro lado, quando nos evocam monstros, falam-nos do poder que a Natureza tem de, à revelia da razão e da ciência, não parar de gerar o inumano, trazer de volta a nossa recalcada animalidade.

 

 

Outro tema constante nas obras de Zamith são as fronteiras ambíguas entre aquilo que se convencionou chamar “ficção” e aquilo que se convencionou chamar “realidade”. Pressentindo que nessas ambiguidades se podem descobrir e revelar muitas nuances da condição humana o artista situa ai o seu projecto “Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade”. Levando mais longe que nunca essa relação entre o corpo e os seus fantasmas. Nas criaturas zamithianas o corpo é o real onde se projectam e refractam mil ficções e fantasmagorias. Num tempo em que a tecnologia está, mais do que nunca, a instabilizar aquilo que tínhamos como Real, em que o corpo se desmultiplica em milhares de imagens de si mesmo através de um sem fim de ecrãs, ao ponto de a vida nos virtual parecer já mais real do que a vida na carne, Pedro Zamith convida-nos a revisitar onze obras-primas do cinema do século XX através de um jogo onde a ficção gera outra ficção, onde os corpos dos actores renascem noutra tela e onde já não são bem humanos, já são monstros. Como se, no limite, o excesso de ficção só pudesse gerar versões monstruosas de si mesma. Nesse jogo, que é uma mise-en-abime, paira inquietante a questão: ainda existe o Real?

 

 

 

Este conjunto de obras feitas em variados suportes é de uma travessia pelo cinema do século XX, tocando nos mais variados géneros de narrativa, desde a distopia de Metropolis ao hiper-realismo de Feios, Porcos e Maus. Cada uma destas obras serve ao pintor para surpreender na ficção cinematográfica as várias doenças da nossa realidade do século XXI: o ressurgimento de movimentos nacionalistas, o espectro de novas formas de ditadura, a fusão homem-máquina (Metropolis, Doutor Strangelove), a submersão do humanismo pelo capitalismo e o triunfo do dinheiro sobre a ética (Citizen Kane), a corrupção e o despotismo (O Padrinho, Feios, Porcos e Maus), a equiparação da juventude e da beleza com o Bem e a consequente marginalização e esquecimento dos que envelheceram (Crepúsculo dos Deuses e O Navio), o voyeurismo das redes sociais (Janela Indiscreta) e a nossa sede de observar o naufrágio dos outros para que, enfim, nos possamos sentir seguros na nossa pele. O absurdo da vida quando sujeita a um terror da morte (Sétimo Selo).

 

 

Neste mundo sombrio, uma só imagem de luz, dos amantes a andarem de bicicleta no bosque (Dois Homens e um Destino), curiosamente aquela que está pintada num suporte mais frágil, o cartão. Pode parecer pouco, mas é com essa imagem que o artista nos lembra que é um céptico e que nada é para levar demasiado a sério, porque a natureza humana é misteriosa e a verdade não passa de uma utopia dos que não têm sentido de humor.

 

 

 

Outra das coisas que Pedro Zamith obriga a vacilar neste projecto é a ideia de que máscara é sinónimo de mentira e rosto limpo é sinónimo de verdade. Nesta espiral de ficções as criaturas obrigam-nos a questionar onde acaba o rosto e começa a máscara. Não serão ambos a mesma coisa? Por alguma razão a palavra “Persona” significa Pessoa e Máscara. Porque o que somos e o que representamos se funde e se confunde fazendo com que estejamos sempre entre a verdade e a mentira, a realidade e a ficção. Não deixa de ser significativo que as obras de Pedro Zamith comecem por ser manchas de cor que ele verte do seu mundo mental para uma superfície material e só depois haverá um traço negro a demarcar-lhes os contornos, a desfazer a ambiguidade abstracta da mancha de tinta dando-lhes uma forma reconhecível. Dir-se-ia que tudo começa com um fantasma informe, um fantasma do artista? Um fantasma que o artista surpreendeu a caminhar nas ruas do mundo? De qualquer modo, ele acabará sempre por ganhar um corpo próprio e por escapar ao seu criador.

 

 

Pressentimos que há, na obra de Zamith, a urgência de um mundo idílico onde cessassem todas as dúvidas mas, ao mesmo tempo, também ele parece pressentir que, por detrás de cada máscara há apenas novas máscaras cada vez mais grotescas e medonhas. A dúvida é o seu território, sempre foi. Talvez por isso ele goste de deambular pelo território da Pop Art e baldios circundantes. Porque ela é aquela que, por excelência, surpreende as doenças da sua época, a que percebe os efeitos devastadores da industrialização e da tecnologia como sinónimo de progresso. Aquela que, com os seus mecanismos de representação, a sua crítica humorística e veemente, se constitui sempre como uma forma de resistência. Ora, a galeria de personagens que Zamith tem criado ao longo dos anos, mas em especial nesta série, remete sempre para a ideia de desagregação, decomposição, para a impossibilidade das sínteses e dos finais felizes. Há antes uma paixão pelo que não se adapta ao despotismo nem dos homens nem dos deuses, pelo que se recusa a ser domesticado, pela figura do rebelde. É ainda e sempre o olhar do céptico, do solitário, do que sabe que tudo é aparência e tudo é mistério mas que não deixa de querer jogar…

 

 

 

 

 

 

 Ver mais:

"QUALQUER SEMELHANÇA COM A FICÇÃO É PURA REALIDADE" - Exposição de Pedro Zamith

 

 

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